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Sem dúvidas, os reality shows viraram "febre" no Brasil e no mundo. Também conhecidos pelo termo reality television (realidade de TV), consistem em um gênero de programa televisivo...
Maria Clara Pasqualeto
02 de maio de 2026 • 3 min de leitura
Sem dúvidas, os reality shows viraram “febre” no Brasil e no mundo. Também conhecidos pelo termo reality television (realidade de TV), consistem em um gênero de programa televisivo baseado na vida real.
No entanto, mesmo com tanta popularidade global, o conteúdo exibido pode acabar indo além do entretenimento, com potencial de desencadear impactos à questão mental.
Segundo a terapeuta Gláucia Santana, os principais afetados consistem no público jovem. Isso ocorre porque esse grupo apresenta desenvolvimento ainda incompleto nos âmbitos mental, cognitivo e emocional.
“Reality shows deixaram de ser apenas entretenimento para se tornar um espelho da vida social contemporânea. Para jovens e adolescentes, esse ‘espelho’ pode funcionar como escola silenciosa de comportamento”.
Em outras palavras, a especialista explica que os jovens ainda estão em processo de descobrimento das suas próprias identidades. Deste modo, as produções podem acabar influenciando o rumo dessa evolução natural.
“Na clínica, isso aparece com frequência: não é que o reality ‘crie’ personalidades do zero, mas ele oferece modelos, roteiros e recompensas emocionais que podem ser incorporados com facilidade por quem ainda está construindo identidade, pertencimento e autoconceito”.
Mais do que apenas programas televisivos, Gláucia destaca que os conteúdos exibidos podem operar de maneira específica na percepção juvenil. Isto é, os acontecimentos estão diretamente ligados à forma como esse público vê o mundo.
“Do ponto de vista psicanalítico, essas produções opera como um ‘laboratório de laço social em tempo real’. Jovens assistem a conflitos, alianças, rejeições e ‘vitórias’, como se esses fatores fossem uma aula sobre como se posicionar no mundo”.
Neste contexto, há uma questão com potencial de ser considerada a mais preocupante: a referência externa. Ou seja, o modo como utilizam os realities como instrumento para a assimilação da realidade.
“Do ponto de vista clínico, o risco mais delicado é quando o jovem passa a usar a lógica do reality para conduzir a vida real: relacionamentos viram disputa, amizade vira teste, conflito vira espetáculo, e a própria identidade vira performance para aprovação. A pessoa começa a se moldar não pelo que acredita, mas pelo que imagina que será aceito”.
Os resultados são, consequentemente, graves, especialmente quando se trata da identidade pessoal. Quando há a junção desses fatores, é possível que o jovem se sinta ‘perdido’, como se não houvesse um espaço para agir de maneira individual e fortalecer a autoestima.
“Isso cobra um preço psíquico: o sujeito se distancia de si para pertencer. O resultado pode ser um aumento de insegurança, irritabilidade, impulsividade e dificuldade de sustentar vínculos profundos”.
A questão mencionada pela profissional não é necessariamente deixar de consumir o conteúdo, mas não torná-lo verdade absoluta. Também é importante saber impor limites, em casos de maior gravidade.
“Consumir esse tipo de conteúdo de forma saudável não significa ‘demonizar’ o reality, mas aprender a não ser consumido por ele. A postura mais crítica começa com limites simples: reduzir tempo de exposição, evitar acompanhamento 24 horas e perceber quando aquilo está interferindo em sono, humor e rotina”
Gláucia finaliza destacando que os programas envolvem pessoas de personalidades diferentes. É fundamental ter consciência da própria essência, não deixando que o externo mude o caráter individual.
“Também ajuda lembrar que existe edição, recortes e narrativa – e que transformar um trecho em sentença moral é uma forma de empobrecer o pensamento. O consumo mais saudável troca a pergunta ‘quem eu odeio ou defendo?’ por ‘o que eu aprendo sobre limites, comunicação, autocontrole e reparo?’. A questão é não transformar torcida em identidade”, finaliza.
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Sem dúvidas, os reality shows viraram “febre” no Brasil e no mundo. Também conhecidos pelo termo reality television (realidade de TV), consistem em um gênero de programa televisivo baseado na vida real.
No entanto, mesmo com tanta popularidade global, o conteúdo exibido pode acabar indo além do entretenimento, com potencial de desencadear impactos à questão mental.
Segundo a terapeuta Gláucia Santana, os principais afetados consistem no público jovem. Isso ocorre porque esse grupo apresenta desenvolvimento ainda incompleto nos âmbitos mental, cognitivo e emocional.
“Reality shows deixaram de ser apenas entretenimento para se tornar um espelho da vida social contemporânea. Para jovens e adolescentes, esse ‘espelho’ pode funcionar como escola silenciosa de comportamento”.
Em outras palavras, a especialista explica que os jovens ainda estão em processo de descobrimento das suas próprias identidades. Deste modo, as produções podem acabar influenciando o rumo dessa evolução natural.
“Na clínica, isso aparece com frequência: não é que o reality ‘crie’ personalidades do zero, mas ele oferece modelos, roteiros e recompensas emocionais que podem ser incorporados com facilidade por quem ainda está construindo identidade, pertencimento e autoconceito”.
Mais do que apenas programas televisivos, Gláucia destaca que os conteúdos exibidos podem operar de maneira específica na percepção juvenil. Isto é, os acontecimentos estão diretamente ligados à forma como esse público vê o mundo.
“Do ponto de vista psicanalítico, essas produções opera como um ‘laboratório de laço social em tempo real’. Jovens assistem a conflitos, alianças, rejeições e ‘vitórias’, como se esses fatores fossem uma aula sobre como se posicionar no mundo”.
Neste contexto, há uma questão com potencial de ser considerada a mais preocupante: a referência externa. Ou seja, o modo como utilizam os realities como instrumento para a assimilação da realidade.
“Do ponto de vista clínico, o risco mais delicado é quando o jovem passa a usar a lógica do reality para conduzir a vida real: relacionamentos viram disputa, amizade vira teste, conflito vira espetáculo, e a própria identidade vira performance para aprovação. A pessoa começa a se moldar não pelo que acredita, mas pelo que imagina que será aceito”.
Os resultados são, consequentemente, graves, especialmente quando se trata da identidade pessoal. Quando há a junção desses fatores, é possível que o jovem se sinta ‘perdido’, como se não houvesse um espaço para agir de maneira individual e fortalecer a autoestima.
“Isso cobra um preço psíquico: o sujeito se distancia de si para pertencer. O resultado pode ser um aumento de insegurança, irritabilidade, impulsividade e dificuldade de sustentar vínculos profundos”.
A questão mencionada pela profissional não é necessariamente deixar de consumir o conteúdo, mas não torná-lo verdade absoluta. Também é importante saber impor limites, em casos de maior gravidade.
“Consumir esse tipo de conteúdo de forma saudável não significa ‘demonizar’ o reality, mas aprender a não ser consumido por ele. A postura mais crítica começa com limites simples: reduzir tempo de exposição, evitar acompanhamento 24 horas e perceber quando aquilo está interferindo em sono, humor e rotina”
Gláucia finaliza destacando que os programas envolvem pessoas de personalidades diferentes. É fundamental ter consciência da própria essência, não deixando que o externo mude o caráter individual.
“Também ajuda lembrar que existe edição, recortes e narrativa – e que transformar um trecho em sentença moral é uma forma de empobrecer o pensamento. O consumo mais saudável troca a pergunta ‘quem eu odeio ou defendo?’ por ‘o que eu aprendo sobre limites, comunicação, autocontrole e reparo?’. A questão é não transformar torcida em identidade”, finaliza.